Palmares, 19 de junho de 2021

PLANO PASTORAL 2021: ouvir, ponderar, anunciar.

06 de janeiro de 2021   .    Visualizações: 191   .    Notícias da Diocese

*Pe. João Paulo Gomes Galindo

Dos muitos mistérios da fé, que eu me perguntei neste Advento passado sobre as duas anunciações deste tempo: do nascimento de João Batista e de Jesus. Existem inúmeras semelhanças entre os dois: ambos envolvem o Arcanjo Gabriel, ambos anunciam um nascimento inesperado e ambas as mensagens fazem com que seus destinatários – Zacarias e Maria, respectivamente – fiquem “perturbados”.

Mas também há uma grande diferença nas narrativas: a resposta de Zacarias de alguma forma o deixa “sem palavras e incapaz de falar”, enquanto a resposta aparentemente semelhante de Maria a deixa – na verdade, a eleva – como um modelo de fé e obediência.

Por que Zacarias é punido por sua resposta, enquanto Maria é recompensada – quando suas reações parecem quase idênticas? Sempre senti um pouco de pena de Zacarias, pois parece, a meu ver, que ele está sendo tratado injustamente por Deus.

Encontrei a resposta (ou uma resposta) para o meu espanto, fico feliz em relatar, dada pelo Papa Bento XVI em seu pequeno livro, Jesus de Nazaré: A infância de Jesus (Planeta, 2012), que ganhei do padre Norberto. É verdade, diz o Papa Bento XVI, que em ambos os casos Gabriel transmite uma mensagem que perturba esses futuros pais. As “angústias” de Zacarias levam-no a temer (“o medo apoderou-se dele” Cf. Lc 1,12), e então a dúvida (“Como saberei isto?” Cf. Lc 1,18), isto é, “tal coisa é possível?” Maria, por outro lado, encontra seu “incômodo” que a leva a não duvidar, mas a ponderar: “Ela não pergunta se, mas como se cumpre a promessa” (Bento, p. 29).

Maria, a quem o Papa Bento XVI descreve como uma “mulher ousada e destemida”, concebe o Senhor “através de seus ouvidos”. Ao amanhecer de 2021, podemos imitar Maria ouvindo a Palavra, especialmente na liturgia.

O Papa Bento XVI resume: Maria não reage com medo, mas “uma reflexão interior sobre a saudação do anjo. Ela pondera (diálogos dentro de si mesma) sobre o que poderia significar a saudação do mensageiro de Deus. Portanto, uma característica marcante da imagem da mãe de Jesus já está presente aqui, e a encontraremos novamente em duas situações semelhantes no Evangelho: seu compromisso interior com a palavra”.

Detesto escrever (mesmo que você certamente deteste ler) o que se tornou uma frase-comum: “2020 foi um ano difícil!” Quem não sabe disso agora? Mesmo assim, vale a pena refletir sobre o exemplo de Maria à medida que as provações de 2020 retrocedem e o Ano Novo começa. Pois agora é a hora de uma nova vida, de excelência, de santidade. Quer tornar 2021 melhor do que 2020? Então ouça e reaja à mensagem de Deus como Maria fez.

Primeiro, OUÇA. No livro do Papa Bento XVI sobre o nascimento de Cristo, o Santo Padre recorda esta notável frase da tradição: “Maria concebeu através de seus ouvidos. Por sua obediência, a Palavra entrou nela e se tornou fecunda nela”. Maria é chamada de “modelo de obediência de fé” (Catecismo, 144-149) porque escuta perfeitamente a Palavra – ela ob-audita (“escuta”) Deus. O mundo de hoje, em particular, tem um problema de audição. Ouve mentiras, é ensurdecido pelo barulho constante. Mesmo quando o barulho cessa, o zumbido nos ouvidos permanece. Se quisermos ajudar Deus a salvar o mundo em 2021 – que é para isso que fomos batizados em Cristo -, ouvir, como Maria, será essencial.

Em segundo lugar, PONDERE. Maria só pôde ponderar, dialogar e se envolver com a Palavra dentro dela porque ela primeiro aceitou aquela Palavra através de seu ouvido e a plantou profundamente com ela. O mesmo também para nós: se podemos ouvir primeiro, podemos então ponderar e nos envolver em um diálogo de coração a coração com Deus. Deus Pai, por meio de sua Palavra (Logos) enviada por sua Respiração, não deseja monologar conosco – “Sente-se, atenção e ouça o que tenho a dizer!” – pelo menos não inteiramente. Em vez disso, ele deseja dialogar conosco através dessa Palavra, recebida no “ouvido do coração” (como a Regra de São Bento diz). Envolvendo-se com a Palavra, dialogando com e por meio da Palavra, refletindo sobre a Palavra, Cristo nasce em nós, como antes em Maria.

O que acontece a seguir muda o mundo. Ouvir a Palavra e ponderá-la no coração não é coisa passiva. Em vez disso, é uma combinação de docilidade e ação. São Bernardo de Claraval, de fato, imagina o mundo decaído dizendo a Maria para não permitir que sua humildade a impeça de compreender a grandeza do momento: “não seja humilde, mas ousada!” (Bento, p. 29-69). O “Sim” de Maria ao convite de Gabriel a impele a levar a Palavra, de seu Filho e do Pai: de Nazaré a Belém, ao Egito, a Nazaré a Jerusalém – e além. Aqui, mais uma vez, Maria exemplifica o que somos chamados a fazer, hoje e em 2021: ouvir, ponderar, anunciar.

O Planejamento para o ano novo – ou, na linguagem da Igreja, “plano pastoral” – traz a liturgia à frente e ao centro. Pois na proclamação litúrgica da Palavra, o Pai nos fala por meio do Filho em seu Espírito Santo; na verdade, a liturgia é o lugar privilegiado para ouvir e, se quisermos, ponderar. Então, com a Palavra dentro de nós, sem medo ressoamos essa Palavra para um mundo barulhento que precisa ouvir boas novas.

Portanto, neste período de Natal, simpatizemos com o “temeroso” Zacarias, mesmo quando aspiramos a imitar a “ousadia” de Maria, a “mulher destemida”. Nossa salvação – e o mundo – dependem disso.


*Pe. João Paulo Gomes Galindo
Pároco na Paróquia Santa Quitéria
Avenida Frei Caneca, 140 – Centro
55540-000 – Palmares – PE
E-mail: joaopaulogalindo@hotmail.com
Nasc.: 12.11.1985
Ord.: 30.01.2015

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