Palmares, 18 de setembro de 2021

Laços de Humanidade

20 de junho de 2021   .    Visualizações: 131   .    Notícias da Diocese

Dom Genival Saraiva de França
Bispo Emérito de Palmares (PE)

Como revela a Sagrada Escritura, o olhar de Deus é amoroso, em relação às coisas criadas e, particularmente, em relação ao ser humano. São João explica a natureza dessa relação: “Deus é amor.” (1Jo 4,8)

 O profeta Oseias tem uma palavra paradigmática sobre o amor de Deus, sobre as estranhas de seu amor:  “Quando Israel era um menino, eu o amei e do Egito chamei o meu filho. Quanto mais eu os chamava, mais se afastavam da minha face; sacrificavam aos baais e incensavam as imagens esculpidas. Mas eu conduzia Efraim, eu os tomava sobre meus braços! E não reconheceram que eu cuidava deles. Com cordas humanas eu os atraia, com laços de amor, e era para eles como quem ergue uma criança ao rosto. Eu me inclinava para ele; eu o alimentava. {…} Meu coração se contorce dentro de mim, juntas, comovem-se minhas entranhas.” (Os 11,1-4.8) A palavra e a ação de Deus, ao criar e ao redimir o ser humano, expressam a grandeza e a profundidade de seu amor, gerando vínculos existenciais, “laços de humanidade” que se manifestam de muitas maneiras, em situações as mais diversas e em contextos muito diversificados. Assim aconteceu no passado, na leitura do profeta Oseias, assim aconteceu com a Encarnação de Jesus Cristo, o profeta da Nova Aliança, assim continua acontecendo na vida e na ação da Igreja, a partir de Pentecostes. “Foi isso que ele fez com o povo hebreu. É isso que faz conosco todos os dias. Porém, não percebemos que é Deus quem cuida de nós e continuamos a achar que fazemos tudo por nós mesmos. […] Ele nos atrai com laços de bondade, diz o profeta, com cordas de amor, e por isso não podemos achar que Deus nos amarra ou nos aliena. […] Os laços de amor não prendem, não amarram, simplesmente unem na liberdade de escolha.”

Nesse contexto da pandemia da Covid-19, a população experimenta um sofrimento comum, sem precedentes na história contemporânea, com circunstâncias agravantes de toda ordem, como a rapidez da transmissibilidade do vírus, a extensão geográfica da sua contaminação, a já longa e imprevisível duração, a alarmante estatística de mortes, as preocupantes sequelas físicas e psicológicas, as graves consequências sociais e as marcas de muitos outros registros devastadores. Um sofrimento coletivo, enfim, por se tratar de uma pandemia. Assim, a humanidade carrega esse peso e, quando for controlada a fase de contaminação em massa, restará sempre a necessidade de cuidados permanentes, por parte de todos porque o mundo, reconhecidamente, é uma “Aldeia global”, como ensinava o mago da comunicação, McLuhan, na década de sessenta.

Se os laços da bondade, do amor de Deus se manifestam, visivelmente, como “laços de humanidade”, como reconhecê-los, frente à tragicidade da pandemia? Diante dessa realidade, ele continua falando à humanidade, conforme a linguagem antropomórfica de Oseias; “Meu coração se contorce dentro de mim, juntas, comovem-se minhas entranhas.” “Não dá pra negar a força dessas expressões. Um Deus que tem um coração que arde de amor por nós e cujas entranhas se comovem cada vez que vê um filho seu sofrendo ou se desviando do caminho.” Os “laços de humanidade”, próprios de Deus, são atados por “cordas humanas”. Por isso, falam à consciência e ao coração das pessoas, através da contribuição da ciência, da formulação de políticas públicas acertadas, como uso de máscara, cuidado com a higienização pessoal, observância do isolamento/distanciamento social, do profissionalismo do pessoal da área da saúde e de outras categorias. A ação de Deus fala também através dos sentimentos e atitudes de solidariedade do povo, fartamente revelados na generosidade da doação de alimentos e de outros bens indispensáveis à vida e à convivência de milhares de pessoas que passaram a aumentar o número dos pobres no Brasil.

Ao invés de criar “laços de humanidade”, em vista do bem comum, infelizmente, o negacionismo e a indiferença, perante o sofrimento causado pela pandemia, estão na contramão das contribuições solidárias da ciência e da sensibilidade humana.


Fonte e Foto: CNBB

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