Palmares, 29 de outubro de 2020

ACOLHER OS DONS DA QUARENTENA

01 de agosto de 2020   .    Visualizações: 236   .    Noticias

Matriz de São Miguel, Barreiros/PE

Desde do dia 18 as missas voltaram nas paróquias de nossa diocese com a “presença do povo”, depois de longas quarentenas de missas-online. Estamos nos ajustando em números, liturgia, gestos, espaços, horários. Somos chamados ao essencial, e isso certamente é bom: palavra, eucaristia, irmãos.

Teremos quase certamente momentos prolongados de silêncio. Aqui, silêncio, sempre ele: seremos capazes de vivê-lo, aprofundá-lo durante as celebrações? Ou vamos cair na tentação de preencher cada momento de silêncio com palavras, palavras, palavras, sejam elas dos celebrantes ou leigos de plantão? Depois de meses de isolamento social e silêncio, podemos ter aprendido, um pouco mesmo que forçados, a dimensão do silêncio: será bom não esquecer e apreciá-la mesmo durante a liturgia, encontrar uma dimensão de oração profunda e escuta do Espírito.

Entre as várias imagens da quarentena, a oração na Praça de São Pedro celebrada pelo Papa tocou profundamente muitos: uma praça vazia, um silêncio prolongado. Lembro-me também da Adoração Eucarística seguindo a liturgia da Palavra: minutos de pausa silenciosa, com as câmeras fixas na Eucaristia. O Papa em oração.

E as missas nas redes sociais? A dimensão do silêncio se fez presente? Nossas preocupações com o preenchimento, mesmo após a comunhão espiritual, nos levam a pensar que: O vazio é assustador. Mas o silêncio é vazio? Claro, será dito, que as redes não gostam de silêncios e missas, se transmitida na mídia, obedece às leis do entretenimento, que foge do silêncio em nome do entretenimento. Nem todos os vazios devem ser preenchidos. São ritos próprios da liturgia.

Minha esperança é que voltar às missas com a presença do povo não tenhamos mais medo do silêncio, que se tenha a coragem do silêncio. E, como as missas-online continuam por mais alguns meses, um segundo desejo: poder desfrutar do silêncio mesmo durante a transmissão das celebrações.

Queridos celebrantes, não sintam a responsabilidade de preencher a pausa com palavras e palavras. Faça homilias curtas, nos dê silêncio: permita fazer a Palavra ressoar.

Acredito que olhar para o tempo que vivemos guiados pela luz da fé e da Palavra significa tentar refazer hoje os passos do que Israel fez através do exílio. A experiência do exílio produzirá um choque na consciência das pessoas que lhes permitirá reler toda a sua história e interpretá-la em uma nova chave. A reflexão teológica desse período levará à redação final da Torá, que abrange a fé mais madura de Israel, nascida precisamente da experiência do exílio. Israel reconhecerá sua infidelidade a aliança com Deus, mas, juntos, a promessa de que JHWH ainda não para de oferecer. Será este novo olhar para a própria história e fé em um Deus que continua a abrir um futuro promissor diante de nós para permitir um novo começo.

Talvez peçamos demais, em relação ao silêncio, num momento de crise ou depois de uma crise gravíssima como esta, mas perguntar-se, vale a pena, como proceder para melhorar as coisas, já que, muitos nos dizem, devemos aprender a conviver com o novo vírus.


Pe João Paulo Gomes Galindo
Pároco da Paróquia de Santa Quitéria, Palmares/PE

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