Palmares, 18 de maio de 2024

A Eucaristia IX

13 de junho de 2020   .    Visualizações: 745   .    Palavra do Bispo

Entramos, com este tópico, em mais um aspecto do mistério da Eucaristia. Ela é sacramento de comunhão. Vejamos.

Assim se exprime São João Paulo II: O Concílio Vaticano II veio recordar que a Celebração eucarística está no centro do processo de crescimento da Igreja. De fato, depois de afirmar que ‘a Igreja, ou seja, o Reino de Cristo já presente em mistério, cresce visivelmente no mundo pelo poder de Deus’, querendo de algum modo responder à questão sobre o modo como cresce, acrescenta: ‘Sempre que no Altar se celebra o Sacrifício da Cruz, no qual Cristo, nossa Páscoa, foi imolado (1Cor 5, 7), realiza-se também a obra da nossa redenção. Pelo sacramento do Pão eucarístico, ao mesmo tempo é representada e se realiza a unidade dos fieis, que constituem um só Corpo em Cristo (cf. 1Cor 10, 17)” (Ecclesia de Eucharistia, 21). Eis: comungando no mesmo pão e no mesmo cálice, Corpo e Sangue do Senhor, pleno do Espírito Santo, nós somos misteriosa e realmente unidos a Cristo e, no Seu Espírito, unidos uns aos outros. É esta contínua união de todos os comungantes com o Senhor e entre si que faz a Igreja manter-se unida e crescer no único Espírito. Eis o motivo pelo qual podemos dizer que a Eucaristia faz a Igreja. Por isso, o celebrante suplica ao Pai que “o Espírito nos uma num só Corpo” (Oração Eucarística II). De que corpo se fala aqui? Do Corpo eucarístico do Senhor e, ao mesmo tempo do corpo eclesial do Senhor: comungando o Corpo eucarístico, tornamo-nos corpo de Cristo, que é a Igreja. De tal modo este Sacramento é sinal e instrumento de unidade, que o Papa São Leão Magno exortava: “Comei deste Pão e não vos separareis; bebei deste Cálice e não vos desagregareis”. A Eucaristia é, portanto, sacramento, isto é, sinal eficaz, da comunhão da Igreja.

Há, então, duas direções nesta comunhão que a Eucaristia cria. Primeiro, uma direção vertical: comungando, somos unidos a Cristo, entramos numa íntima, misteriosa e realíssima comunhão com Ele: A incorporação em Cristo, realizada pelo Batismo, renova-se e consolida-se continuamente através da participação no Sacrifício eucarístico, sobretudo na sua forma plena que é a comunhão sacramental. Podemos dizer não só que cada um de nós recebe Cristo, mas também que Cristo recebe cada um de nós. Ele intensifica a Sua amizade conosco: ‘Chamei-vos amigos’ (Jo 15,14). Mais ainda, nós vivemos por Ele: ‘O que come de Mim viverá por Mim’ (Jo 6,57). Na comunhão eucarística, realiza-se de modo sublime a inabitação mútua de Cristo e do discípulo: ‘Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós’ (Jo 15,4)” (Ecclesia de Eucharistia, 22). Esta comunhão misteriosa e real com o Senhor, que é Cabeça da Igreja, gera uma segunda comunhão, numa direção horizontal: comunhão profunda com os outros, isto é, os irmãos que comungando do mesmo Corpo e Sangue tornam-se “con-corpóreos” e “con-sanguíneos” em Cristo: Pela comunhão eucarística, a Igreja é consolidada igualmente na sua unidade de corpo de Cristo. A este efeito unificador que tem a participação no Banquete eucarístico, alude São Paulo quando diz aos coríntios: ‘O pão que partimos não é a comunhão do Corpo de Cristo? Uma vez que há um só pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão’ (1Cor 10,16-17). Concreto e profundo, São João Crisóstomo comenta: ‘Com efeito, o que é o pão? É o Corpo de Cristo. E em que se transformam aqueles que o recebem? No Corpo de Cristo; não muitos corpos, mas um só Corpo. De fato, tal como o pão é um só apesar de constituído por muitos grãos, e estes, embora não se vejam, todavia estão no pão, de tal modo que a sua diferença desapareceu devido à sua perfeita e recíproca fusão, assim também nós estamos unidos reciprocamente entre nós e, todos juntos, com Cristo’. A argumentação é linear: a nossa união com Cristo, que é dom e graça para cada um, faz com que, Nele, sejamos parte também do Seu corpo total que é a Igreja. A Eucaristia consolida a incorporação em Cristo operada no Batismo pelo dom do Espírito (cf. 1Cor 12,13.27)” (Ecclesia de Eucharistia, 23).

Por tudo isso, a Igreja, desde a Antiguidade, foi chamada Comunhão dos Santos, porque nasce da comunhão daqueles que participam das Coisas santas, isto é, do Corpo e Sangue de Cristo. O Catecismo da Igreja Católica afirma que a Eucaristia é chamada também de “comunhão, porque é por este sacramento que nos unimos a Cristo, que nos torna participantes do Seu Corpo e do Seu Sangue para formarmos um só corpo denomina-se ainda ‘as Coisas Santas’ – este é o sentido primeiro da ‘comunhão dos santos’ de que fala o Símbolo dos Apóstolos – Pão dos anjos, Pão do Céus, remédio de imortalidade, viático…” (n. 1331).

Esta comunhão é real, primeiro porque cria e desenvolve em todos os comungantes a mesma Vida do Cristo Senhor, morto e ressuscitado, de modo que a Igreja é o Corpo do Senhor todo vivificado pelo Santo Espírito. É real também porque estimula, pela graça mesma do Senhor, a que vivamos na concórdia, na compreensão, no respeito mútuo, no serviço fraterno e na paz. Além do mais, a co-participação na mesma Eucaristia, exige de nós a solidariedade, em repartir os bens espirituais e materiais com os irmãos. É no contexto eucarístico que devem ser entendidas as palavras dos Atos dos Apóstolos, que são a discrição ideal da Igreja de todos os tempos: “Eles se mostravam assíduos ao ensinamento dos apóstolos, e à comunhão fraterna, è fração do pão e às orações. Todos os que tinham abraçado a fé reuniam-se e punham tudo em comum: vendiam suas propriedades e bens, e dividiam-nos entre todos, segundo a necessidade de cada um” (2,42.44)A comum Fração do Pão eucarístico estava ligada à comunhão na mesma doutrina dos apóstolos e exigia, como consequência, a partilha dos bens, de modo que, em qualquer tempo, uma comunidade que parta e reparta o Pão eucarístico, mas se negue a colocar em comum talentos, ideias e bens, procurando suprir, o quanto possível, os mais fracos e carentes, é uma comunidade indigna de celebrar a Eucaristia. Este Sacramento santíssimo, exige a coerência de procurar construir sempre a vida de comunhão nos seus mais diversos aspectos: comunhão de pensamentos, comunhão de oração, comunhão de talentos, comunhão de bens… Eis algumas das lições e exigências da Eucaristia. Comungar no Altar e não comungar na vida seria uma mentira sacrílega! Ora, como a comunhão é sempre ameaçada pelo pecado que gera o egoísmo, raiz de toda divisão, a Eucaristia vai nos dando a misteriosa força do Espírito de unidade e diversidade para que cresçamos nesta comunhão, que é a Igreja: “Nós vos suplicamos que, participando do Corpo e Sangue de Cristo, sejamos reunidos pelo Espírito Santo num só corpo” (Oração Eucarística II).

Continuaremos ainda em outros textos seguintes.

Dom Henrique Soares da Costa
Bispo de Palmares


Fonte: Visão Cristã