Palmares, 23 de maio de 2024

A Eucaristia III

11 de junho de 2020   .    Visualizações: 406   .    Palavra do Bispo

Em dois textos pretéritos, já vimos, de modo geral, o que é a Eucaristia. Vimos também os vários nomes que são dados a este Sacramento e seus vários significados. Agora vejamos como ele está presente na Sagrada Escritura.

Já durante os dias da Sua carne, no Seu ministério público, o Senhor Jesus foi dando indicações daquilo que depois seria este santo Sacramento. Vejamos algumas, mais significativas.

Primeiramente dois sinais particularmente importantes, realizados pelo Senhor: Ele transformou água em vinho e multiplicou os pães. Mais ainda: várias vezes comparou o Reino de Deus a um banquete: um banquete que teria como convivas pessoas de todas as nações e que seria pleno e eterno na consumação do Reino de Deus, banquete ao qual seriam chamados os pobres, os afastados, os pecadores, os que não tinham esperança, banquete cuja graça é participar da Vida do próprio Deus. Sobretudo em Jo 6,51ss, as palavras de Cristo são bem claras: “Eu sou o Pão descido do Céu. Quem comer deste Pão viverá eternamente. O pão que Eu darei é a Minha Carne para a vida do mundo. Em verdade, em verdade, vos digo: se não comerdes a Carne do Filho do Homem e não beberdes o Seu Sangue, não tereis a Vida em vós. Quem come a Minha Carne e bebe o Meu Sangue tem a Vida eterna, pois Minha Carne é verdadeiramente comida e Meu Sangue é verdadeiramente bebida. Assim como o Pai, que vive, Me enviou e Eu vivo pelo Pai, também aquele que come de Mim, viverá por Mim”. O texto não permite pensar em metáforas; trata-se, ao invés, de algo real, concreto: o pão e o vinho eucarísticos são, realmente, o Corpo e o Sangue do Senhor. E isto aparece ainda mais claro no contexto mesmo da Última Ceia: contexto de entrega da própria existência, feita louvor oblativo ao Pai e serviço de dar a vida pelos irmãos: Corpo dado, sangue derramado! Por isso mesmo, os evangelhos, quando narram a multiplicação dos pães, usam sempre as mesmas palavras para indicar os gestos de Jesus na Última Ceia: Ele tomou o pão, deu graças, partiu e distribuiu (cf. Mt 14,13-21; Lc 9,10-17; Jo 6,1-13; Mc 8,1-10). A Eucaristia, já preparada pelo Cristo, foi por Ele instituída na Última Ceia: aí o Senhor deu à Igreja o mandamento do amor – Ele mesmo, que nos amou até o extremo da Cruz e da Sepultura e colocou-Se como modelo e medida do amor. E para deixar o Sacramento, o penhor desse amor mais forte que a morte, instituiu a Eucaristia como memorial de Sua Morte e Ressurreição, de Sua entrega amorosa, pascal! Assim, no momento de fazer Sua Passagem (isto é, Sua Páscoa) do mundo para o Pai através de Sua entrega de amor na Cruz, o Cristo Jesus deixou para a Sua Igreja o sacramento de Sua Páscoa de amor: o Sacrifício eucarístico! Cumpriu-se, assim, a Páscoa dos judeus, que era memorial da passagem da escravidão de morte no Egito para uma libertação de vida na Terra Prometida. Jesus deu à Páscoa dos judeus o seu significado definitivo: a nova Páscoa, Páscoa do Cristo Jesus, foi antecipada na Ceia, é continuamente celebrada na Eucaristia, que leva a cumprimento a Páscoa judaica e antecipa a Páscoa final da Igreja, quando passaremos deste mundo para o Pai com Jesus Senhor e por causa de Jesus Senhor.

É interessante insistir que a instituição da Eucaristia por Cristo dá-se no contexto, no clima, de entrega e sacrifício de Sua vida: “É o Meu Corpo, que será entregue; é o Meu Sangue, que será derramado”... Finalmente, o Senhor ordena que a Igreja celebre o Seu gesto até que Ele venha (cf. 1Cor 11,26). Foi isto que a Igreja sempre fez ao celebrar a Eucaristia. O Novo Testamento nos dá muitíssimos exemplos disso. Desde o início, a Igreja foi fiel à Fração do Pão (cf. At 2,42.46). Sobretudo no primeiro dia da semana, aquele dia que o Apocalipse chama já de “Dia do Senhor” (1,10), os cristãos se reuniam para partir o pão: “No primeiro dia da semana, estando nós reunidos para a Fração do Pão, Paulo entretinha-se com eles…” (At 20,7). Este texto é importante. Aqui aparece a Celebração eucarística aos domingos, logo no início do cristianismo. Aquilo que a Igreja faz hoje – celebrar dominicalmente a Eucaristia -, sempre fez, desde a época apostólica, por ordem do Senhor Jesus! Assim, como diz o Catecismo da Igreja, “de celebração em celebração, anunciando o mistério pascal de Jesus, ‘até que Ele venha’ (1Cor 11,26), o Povo de Deus avança, caminhando pela estrada da cruz, rumo ao Banquete celeste, quando todos os eleitos haverão de sentar-se à mesa do Reino” (n. 1344).

Para ilustrar o que dissemos, baste-nos, por agora, o profundo texto de São Paulo, em sua primeira Epístola aos Coríntios: “Eu mesmo recebi do Senhor o que vos transmiti: na noite em que foi entregue o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse: ‘Isto é o Meu corpo, que é para vós; fazei isto em memória (memorial) de Mim’. Do mesmo modo, após a ceia, também tomou o cálice, dizendo: ‘Este cálice é a nova Aliança em Meu Sangue; todas as vezes que dele beberdes, fazei-o em memória (memorial) de Mim’. Todas as vezes, pois, que comeis desse pão e bebeis desse cálice, anunciais a Morte do Senhor até que Ele venha” (1Cor 11,23-26). Um pouco mais tarde, lá pelo ano 155, São Justino, mártir cristão, explicaria ao Imperador romano, Antonino Pio: “No dia chamado ‘do Sol’ (isto é, o domingo cristão), reúnem-se todos juntos, habitantes das cidades e dos campos. São lidas as memórias dos Apóstolos (os nossos evangelhos atuais e os outros livros do Novo Testamento) e os escritos dos profetas (o Antigo Testamento), tanto quanto o tempo permite. Depois, quando o leitor termina, aquele que preside nos admoesta e nos exorta a imitar esses bons exemplos. Depois, todos juntos, nos colocamos em pé e elevamos orações seja por nós mesmos, seja por todos os outros, onde quer que se encontrem… Terminadas as orações (oração dos fieis), saudamo-nos uns aos outros com um beijo. Depois, são trazidos àquele que preside um pão e um cálice de água e vinho. Ele os toma e eleva o louvor e glória ao Pai do universo em Nome do Filho e do Espírito Santo e faz uma ação de graças (em grego, ‘eucaristia’. É a atual Oração eucarística) para que esses dons sejam dignos de Deus. Quando ele termina as orações e a ação de graças (a Oração eucarística), todo o Povo presente aclama: ‘Amém’. Depois que o que preside fez a ação de graças e todo o Povo aclamou, aqueles que nós chamamos diáconos distribuem a cada um dos presentes o Pão e o Vinho com água ‘eucaristizados’ e os levam aos ausentes…”

Que coisa linda! Dois mil anos se passaram e a Igreja de Cristo, fidelíssima à Tradição Apostólica, continua fazendo o que sempre fez: celebrando a Eucaristia até que venha o seu Senhor para introduzi-la na plenitude da Eucaristia do Reino de Deus!

Dom Henrique Soares da Costa
Bispo de Palmares


Fonte: Visão Cristã