Palmares, 18 de maio de 2024

A Eucaristia II

11 de junho de 2020   .    Visualizações: 1413   .    Palavra do Bispo

No tópico passado comecei a apresentar meditações sobre a Eucaristia. Seguindo o Catecismo da Igreja Católica, comecei mostrando os vários nomes dados a esse Sacramento e seus significados respectivos. No presente texto, vamos prosseguir com os nomes dados ao Sacramento do Altar.

A Eucaristia é chamada também de “Memorial” da Paixão e Ressurreição do Senhor. Vale a pena compreender bem o sentido da palavra “memorial”. Ela não significa simplesmente recordação ou memória. Nas Escrituras, memorial é dito zikaron e significa tornar presente, por gestos, símbolos e palavras, um fato acontecido no passado uma vez por todas. Por exemplo: uma vez por ano, os judeus celebravam e celebram ainda hoje a Páscoa, memorial da saída do Egito. Pois bem, eles, nessa celebração, não somente recordam a passagem da escravidão para a liberdade, mas tinham e têm a consciência de que, participando da celebração, participam realmente da própria libertação que Deus operara. Tanto isso é verdade que, ainda hoje, o pai de família judeu, aquele que preside à celebração, diz assim: “Em toda geração, cada um deve considerar-se como se tivesse pessoalmente saído do Egito, como está escrito: ‘Explicarás então a teu filho: isto é em memória do que o Senhor fez por mim, quando saí do Egito’. Portanto, é nosso dever agradecer, honrar e louvar, glorificar, celebrar, enaltecer, consagrar, exaltar e adorar a Quem realizou todos esses milagres por nossos pais e para nós mesmos. Ele nos conduziu da escravidão à liberdade, do sofrimento à alegria, da desolação a dias festivos, da escuridão a uma grande claridade e do cativeiro à redenção”. E, depois, acrescenta: “Bendito sejas Tu, Adonai, nosso Deus, rei do universo, que nos redimiste, libertaste nossos pais do Egito, e nos permitiste viver esta noite para participar do Cordeiro, do pão ázimo e das ervas amargas”. Ora, é exatamente isso que a Eucaristia é: memorial da Páscoa do Senhor Jesus. Este bendito Sacrifício pascal, desde a Ressurreição, encontra-se no Eterno, no Santuário dos Céus, no Eterno, onde já não há tempo, mas somente o Hoje eterno de Deus. Ali, esse Sacrifício é eterno, do eterno Cordeiro Jesus, oferecido pelo Cristo Sacerdote eterno, no Santuário eterno! Ele jamais passará, jamais caducará, jamais precisará ser renovado e repetido. Quando nós o celebramos, dos Céus, ele se torna presente em todos os tempos e lugares onde é oferecido, no nosso hoje, na nossa vida, na nossa situação, tudo quanto Jesus Cristo fez por nós, que alcança seu cume na Sua Morte e Ressurreição. Deste modo, a Páscoa do Senhor está sempre presente e atuante na nossa vida e, através do Cristo Jesus e com o Cristo Jesus, podemos dizer ao Pai como os judeus dizem: “é nosso dever agradecer, honrar e louvar, glorificar, celebrar, enaltecer, consagrar, exaltar e adorar a Ti, Adonai, Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo!” Então, assim sendo, não é uma ideia muito exata afirmar que a Missa é a repetição ou a renovação do Sacrifício de Cristo. Não se repete, porque Ele foi oferecido uma vez por todas; não se renova, porque não ficou caduco, envelhecido. Em cada Missa torna-se presente, atuante, o único Sacrifício pascal do Senhor, memorial da sua Encarnação, de Sua vida humana, de Sua Paixão, Morte e Ressurreição, da Sua Ascensão ao Pai e do dom do Espírito que Ele nos fez!

Outra denominação para a Missa é “Santo Sacrifício”. Isto porque, como já dissemos, ela torna presente, “presentifica”, o único e irrepetível Sacrifício pascal, do Cristo salvador, sacrifício de Morte e Ressurreução, que se encontra na Eternidade divina; Sacrifício que o Senhor Jesus deu à Sua Igreja para que ela o ofereça, dele participando, até que Ele venha em sua Glória. Por isso mesmo, é chamado de Sacrifício de louvor, Sacrifício espiritual (porque oferecido na força do Espírito Santo), sacrifício racional (porque oferecido com a consciência, a liberdade, a intenção), Sacrifício puro e santo (porque Sacrifício do próprio Cristo Jesus). Apesar de ser único, original e incomparável, este santo sacrifício da Missa leva à plenitude todos os sacrifícios de todas as religiões e, particularmente, aqueles do Antigo Testamento. Podemos até recordar as palavras da profecia de Malaquias, na qual Deus prometia a Israel um sacrifício perfeito ao Seu Nome: “Sim, do levantar do sol ao seu poente o Meu Nome será grande entre as nações, e em todo lugar será oferecido ao Meu Nome um sacrifício de incenso e uma oferenda pura” (1,11). Cristo, com Seu sacrifício único e irrepetível, que entregou à Sua Igreja para celebrá-lo até que Ele venha, ofereceu este Sacrifício, cumprindo a profecia.

Ainda um outro nome para a Missa: “Santa e Divina Liturgia”. São os católicos orientais que gostam mais de denominar assim a Eucaristia. Chamam-na “liturgia” porque toda a liturgia da Igreja (todas as suas celebrações), encontra seu centro, sua fonte, seu cume e sua mais densa expressão na celebração da Eucaristia. Toda a liturgia brota de Eucaristia e para a Eucaristia tende, encontrando nele sua fonte e ápice e plena realização. É no mesmo sentido que chamamos a Missa de “Santos Mistérios”. “Mistérios”, falando teologicamente, são os sacramentos, são os gestos e palavras eficazes e “espirituadas”, pelas quais a salvação chega até nós. Ora, o Mistério da Eucaristia é o canal privilegiado pelo qual entramos em contato com a graça advinda da Páscoa do Cristo Jesus, nosso Deus e Senhor!

“Comunhão” – eis aqui outro nome dado à Eucaristia. Nome belíssimo! É chamada assim porque nela nos unimos a Cristo e, por Ele, ao Pai, no Espírito Santo; Cristo que nos faz cada vez mais membros do Seu Corpo e, assim, membros uns dos outros – pois o Corpo de Cristo é a Igreja, que somos nós. Comungando no Corpo do Senhor, entramos em comunhão com Cristo e, em Cristo, pleno do Santo Espírito, entramos em comunhão uns com os outros.

Outra expressão, também cara aos nossos irmãos católicos orientais, é “Coisas Santas”. Coisas Santas são o Pão e o Vinho eucarísticos, Corpo e Sangue do Senhor, que cria a Comunhão dos Santos, que é a Igreja. Comungando as Coisas Santas, entramos em comunhão uns com os outros em Cristo, tornamo-nos membros da Comunhão dos Santos, que é a Igreja, e comprometemo-nos a viver tal comunhão na vida de cada dia, como comunhão de vida, pela solidariedade, pela partilha, pelo amor fraterno. Claro que as “Coisas Santas” não devem jamais ser separadas da totalidade da Celebração do Sacrifício eucarístico!

Finalmente, o termo mais popular entre nós: “Missa”. Esta palavra foi adotada na Idade Média e vem do latim missio (= missão, envio). Recorda a despedida da Celebração eucarística: “Ite, missa es!t” É este “Ide! Está feito!” que exprime a missão (= a missio) de quem participa da Eucaristia. Celebrar a Eucaristia é cumprir o que o Senhor ordenou à Sua Igreja, a missão que lhe deu de realizar o Sacrifício até que Ele venha; celebrar a Páscoa do Senhor também exige do cristão a missão de testemunhar e anunciar o Cristo. É como se, ao final da Celebração, fosse-nos dito: agora que participastes do Corpo e do Sangue do Ressuscitado, ide pelo mundo e testemunhai sua vitória pascal. Ele está vivo; está convosco, perante, ressuscitado e ressuscitante! Vós, que comestes e bebestes com Ele, sereis testemunhas disso até os confins da terra!

Ainda escreveremos mais…

Dom Henrique Soares da Costa
Bispo de Palmares


Fonte: Visão Cristã