Palmares, 20 de abril de 2024

Homilia Para A Solenidade Do Coração De Jesus – ano a

19 de junho de 2020   .    Visualizações: 705   .    Homilias

Dt 7,6-11
Sl 102
1Jo 4,7-16
Mt 11,25-30

Caríssimos no Senhor, hoje a Liturgia nos faz contemplar o Coração do Cristo Jesus. Mas, o que significa precisamente este apelativo: Coração de Jesus? Poderia, à primeira vista, parecer algo um tanto sentimental, até mesmo meloso, afastado do pensamento das Escrituras. Ora, para compreender bem quão grande, belo, sublime, importante o mistério que celebramos – Mistério do Coração do Senhor Jesus Cristo nosso Salvador –, é necessário primeiramente compreender o que significa “coração” precisamente nas Escrituras Santas! É daí que poderemos beber toda a riqueza desta imagem: o coração do nosso Deus!

Bem diverso do significado atual nas línguas modernas, nos Escritos santos, o coração significa o mais íntimo da pessoa, sua interioridade, o lugar dos seus pensamentos, planos e projetos, o núcleo mesmo do seu eu. Dizer meu “coração”, seria dizer “eu mesmo”, com tudo quanto tenho de mais meu; dizer “coração” significa dizer meu íntimo mais íntimo! Por isso mesmo as palavras do Salmo 32, no início da Missa de hoje, como está no Missal, referindo-se ao Coração de Deus: “Eis os pensamentos do Seu Coração, que permanecem ao longo das gerações: libertar da morte todos os homens e conservar-lhes a vida em tempo de penúria!” Está aí, bem sintetizado: o Coração do Senhor Deus é o lugar do Seu pensamento, do Seu desígnio de amor! E este “lugar” chamado “coração” é vida, é amor, é tornar feliz e plena a humanidade!

Assim, contemplar o Coração do Eterno é vê-Lo na Sua maior intimidade! O que há no Coração de Deus? Há somente Amor, a ponto de São João exclamar, hoje, na segunda leitura: “O amor vem de Deus; Deus é Amor! Quem permanece no amor, permanece com Deus e Deus permanece com ele!” Na verdade, já na Antiga Aliança, o Senhor revelou muitas vezes e de modos diversos, este traço, esta característica essencial do Seu próprio Ser. Basta tomar o que ouvimos na primeira leitura, a declaração de amor que o Senhor Deus faz ao Seu Povo de Israel: “O Senhor Se afeiçoou a vós e vos escolheu, não por serdes mais numerosos que os outros povos – na verdade, sois o menor de todos – mas, sim, porque o Senhor vos amou…” Eis o Deus das Escrituras, o Deus de Israel: um Deus que ama gratuitamente, ama sem esperar vantagem alguma, ama esperando somente amor: ama porque ama, ama com toda liberdade e pura gratuidade!

Ora, caríssimos, Deus quis nos revelar este amor, Deus quis Se revelar como puro amor; ele quis mostrar-Se, visivelmente, no Seu amor! Para isso, enviou o Seu Filho, para nos amar divinamente de modo humano, com traços humanos, de modo que o ser humano pudesse perceber, compreender e aprender esse amor! O Salvador mesmo dissera: “Quem Me vê, vê o Pai; Eu estou no Pai e o Pai está em Mim; Eu e o Pai somos um!” (Jo14,9.10; 10,30). No Coração do Senhor Jesus, Deus feito homem, Deus com Coração de homem, nós podemos ver humanamente Deus amando! Não por acaso o nosso Salvador afirma hoje, no Evangelho: “Ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho O quiser revelar!” Percebeis, meus amados irmãos? O Filho revela a intimidade do Pai porque conhece o Pai e do Pai provém! Seu Coração é imagem perfeita do Ser do Pai, do Coração do Pai – o Coração do Cristo é um só com o Coração do Pai! Como afirma o Autor da Epístola aos Hebreus, falando do Filho bendito, “Ele é o resplendor da Sua Glória, a expressão da Sua Substância” (Hb 1,3), isto é, a expressão do Seu Ser, do próprio Ser de Deus!

Assim, contemplemos o Cristo, o Seu ser mais profundo, no Seu Coração! O que vemos? Puro amor ao Pai, pura entrega ao Pai e, no amor ao Pai e pelo amor do Pai, puro amor aos irmãos, pura doação à humanidade! Contemplando o Senhor Jesus no Seu Coração humano, aprendemos humanamente como Deus ama e como devemos amar. Por isso mesmo, a segunda leitura desta Missa insiste em que aprendamos a acolher o amor de Deus em Cristo, a viver o amor de Deus em Cristo e a transbordar o amor de Deus em Cristo! Amados no senhor, atenção: não se pode adorar o Coração amante e amável do Cristo Jesus sem se deixar invadir por esse Amor, que é o próprio Espírito Santo que Ele derramou no nosso coração (cf. Rm 5,5) e sem nos colocarmos em constante saída para amar os irmãos! O amor, a louvação ao Coração do Cristo Jesus não pode ser algo desvinculado da nossa realidade de amor! Beber das fontes do Coraçào mante do Salvador nos joga no amor, nos faz amantes em Cristo, portadores do amor de Cristo para os outros! Escutemos: “Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus! Foi assim que o amor de Deus se manifestou entre nós: Deus enviou o Seu Filho único ao mundo, para que tenhamos Vida por meio Dele. Caríssimos, se Deus nos amou assim, nós também devemos amar-nos uns aos outros. E nós conhecemos o amor que Deus tem para conosco e nele acreditamos. Deus é amor: quem permanece no amor, permanece com Deus e Deus permanece com ele”Eis aqui, meus caros no Senhor: fixar os olhos no Coração do Cristo e ir a Ele, aprender Dele e com Ele, que é humilde e manso, que é a imagem verdadeira e fiel do próprio amor de Deus para conosco! Contemplar e experimentar o amor do Coração de Cristo para testemunhá-lo e derramá-lo nos irmãos, sobretudo nos que mais precisam do nosso amor e, muitas vezes, nem têm nem sabem como retribuir o amor que de nós recebem! Mas, “quanto a nós, amemos, porque Ele nos amou primeiro” (1Jo 4,19).

Estejamos atentos: o amor cristão não é um mero sentimento, não é um simples ato de boa vontade, de bondade humana e filantropia mundana, tão em moda hoje em dia! O amor em Cristo brota de nossa união com o Senhor Jesus, nasce da experiência no Espírito Santo de amor, Espírito Santo de Cristo! Nesse Espírito, que brota com a água do Batismo e o sangue da Eucaristia, água e sangue jorrados do Coração do Salvador (cf. Jo 19,34), nos são dados todo o bem e toda a graça, toda cura e toda esperança, toda força e toda salvação!

Queridos Irmãos, que a Festa de hoje nos faça escutar novamente com toda atenção e toda fé o convite do nosso Jesus Senhor: “Vinde a Mim, todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e Eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o Meu jugo – jugo de Amor! – e aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de Coração, e vós encontrareis descanso. Pois o Meu jugo é suave e o Meu fardo é leve!” Eis: nos cansaços no caminho da vida, encontremos descanso no Coração de Jesus; nas fadigas que querem nos impedir de caminhar, encontremos remanso e restauro no Coração de Jesus; quando os fardos da existência forem pesados demais, procuremos a leveza suave do Coração de Jesus; quando o jugo dos homens e das obrigações desta vida nos acabrunharem, encontremos o alívio no Coração de Jesus! Nele está a nossa Vida, Nele, a nossa Paz, Nele a nossa felicidade e plenitude, aqui e por toda a Eternidade na plenitude do Reino dos Céus. Amém.

Jesus, manos e humilde de Coração, fazei o nosso coração semelhante ao Vosso!

Dom Henrique Soares da Costa
Bispo de Palmares


Fonte: Visão Cristã